quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Uma Noite de Vigília!

Era uma povoação que ficava a meio-caminho entre o Cobué e a fronteira norte de Moçambique. Das poucas que visitei era a maior de todas, mas não recordo o nome. Segundo informações recebidas, havia um grande intercâmbio entre os guerrilheiros da Frelimo e a população. Não se sabia muito bem se de modo voluntário ou forçado. Havia quem dissesse que havia guerrilheiros dali originários e que ali vinham dormir, com as suas mulheres, todas as noites. A única maneira de confirmar isso era vigiá-los e tentar surpreendê-los. Apanhá-los com a boca na botija, como se costuma dizer.
Para esse efeito foi deslocada a minha secção, acompanhada do oficial comandante do nosso pelotão, o tenente Tavares Costa. Ao cair da noite saímos do Cobué, a bordo da Lancha Castor, nosso único meio de transporte, naquele tempo. Como os motores das lanchas se ouviam a uma grande distância, no silêncio da noite, desembarcamos a uma distância considerável da povoação, fazendo o resto do caminho a pé. Chegamos lá por volta da meia-noite. O nosso chefe dividiu a secção em quatro grupos de dois homens, colocando-os em pontos estratégicos e ficando ele, na companhia do chefe de secção, perto da praia e mais ou menos ao centro de todo o grupo.
As ordens eram para vigiar quem entrava e quem saía, durante a noite, sem provocar alarido. Ao romper da manhã avançaríamos todos de modo a cercar as palhotas da povoação e evitar que algum suspeito fugisse para o mato. E começou a vigília.
Por casualidade fiquei, com um dos meus amigos mais chegados e também pertencente à minha esquadra, no primeiro posto, ou seja, aquele que se situava mais a sul da povoação, mais perto do Cobué. Os outros quatro grupos de dois homens estavam todos mais para o norte, formando uma espécie de meia-lua e distantes uns dos outros entre 100 e 200 metros. Como mais antigo dos dois cabia-me a responsabilidade do posto. A nossa principal preocupação teria que ser com a possível vinda de alguém do lado sul, usando a mesma (e única) picada por onde tínhamos vindo. Para entrar na povoação seria preciso passar por nós e tínhamos que garantir que isso não acontecesse. O último grupo, mais a norte, fecharia a picada do lado norte. Os restantes concentrar-se-iam nas palhotas e em tentar descortinar se alguém se mexia por lá.
As horas foram-se sucedendo sem que nada de especial acontecesse. O meu camarada, fumador inveterado, não conseguiu resistir muito tempo à vontade de fumar. Avisei-o do risco que corria, tanto por causa do brilho de cigarro como do cheiro do tabaco queimado. Ele afastava-se de mim cerca de 10 metros, escondia o cigarro entre as mãos, em forma de concha, e lá os ia queimando, uns atrás dos outros.
Numa dessas surtidas, pouco passava das cinco horas e ainda não se via o dia, regressou apressadamente para o pé de mim e disse-me que lhe parecia que vinha alguém pela picada. Tinha deitado fora o cigarro e destravado a G3. Pusemo-nos de ouvido à escuta e ouvimos uns passos que se aproximavam. Ele que estava um ou dois metros á minha frente, de repente, deu um salto para o meio da picada e gritou: Alto, pára aí!
Era um homem de meia idade que vinha a sair da povoação, com um grande cesto de mandioca à cabeça. Apanhou o maior susto da vida dele quando viu o meu amigo de G3 apontada à sua barriga e, atirando pelo ar o cesto que carregava, desatou a correr em direcção à aldeia. O meu amigo voltou a gritar: Pára imediatamente ou disparo! Com o medo no corpo, claro está que o homem não parou. E o meu amigo carregou no gatilho disparando uma rajada curta.
A partir dali foi um pandemónio. O Tavares Costa tentava contactar-nos pelo rádio sem o conseguir. Aliás, eu ouvia a sua voz nitidamente, vinda de entre as árvores, embora o rádio não emitisse nem um pio. Obedecendo a vozes de comando, gritadas de grupo em grupo, fomos fechando o cerco e aproximando-nos do centro da povoação. Ninguém notou qualquer movimento suspeito de gente a entrar ou sair da povoação. Todos de dedo no gatilho e ainda sem saber o que tinha motivado os disparos iam convergindo para o grupo de palhotas que formava a aldeia. Entretanto ia despontando o dia e já se avistavam as pessoas. Com surpresa vimos que todos os aldeãos, homens, mulheres e crianças, se aglomeravam perto de uma das palhotas e fixavam algo que se encontrava no centro do grupo.
Quando o nosso oficial viu que todos os seus homens estavam bem e em posição defensiva rodeando a povoação, dirigiu-se ao grupo de indígenas para ver o que olhavam com tanta atenção. E o que ele viu foi o negro que tinha sido o alvo da rajada do meu amigo, com as tripas de fora e esvaindo-se em sangue.
E como não encontrássemos nada suspeito, acabamos por nos dirigir à Castor que, entretanto, aproara à praia, embarcamos e rumamos ao Cobué. Como não se vivia ainda um clima de guerra aberta, houve queixa do lado dos habitantes da aldeia, houve investigações levadas a cabo pelo Administrador do Posto e tudo o mais que a situação impunha. E houve uma altura em que receamos que o nosso camarada fosse castigado por causa do acontecido.
Felizmente reinou o bom senso e o assunto foi esquecido. E meia-dúzia de dias depois destes acontecimentos já estávamos de novo na Radionaval da Machava e preparando-nos para rumar à Metrópole.

4 comentários:

Artur/Leiria disse...

Um artigo bem explicadinho camarada!
Este, neste post, é dum calibre merecedor de medalha entre outros, por ti escritos, tais como: o passado em dia de inspecção no Corpo de Marinheiros onde, um dos mancebos teve que ser sujeitado a levar com uma toalha embebida com éter em cima do membro erecto para o mesmo acalmar! O segundo foi onde descreves a história com o galo passada em Metangula, e o terceiro o que descreve o primeiro baptismo da emboscada da tua secção e a envolvência do PIDE! Causando este a minha peripécia no recolhimento do corpo da infeliz “casualidade”, com o Marcolino no lago Niassa…
Todos estes artigos, para quem não os leu façam-no que vale a pena… mas há mais!
O nosso Timoneiro melhor que Fuzileiro, daria uma alta patente como Escriturário!
Há que lhe bater a pala camaradas…

«16429 - TINTINAINE» disse...

Essa do éter foi a melhor de todas as minhas vivências dos dias das inspecções. Só quem lá esteve nesse dia pode atestar o que lá se passou. Foi de rebentar a rir!
Quando voltar a reunir-me com o Marcolino vou perguntar-lhe se se recorda da vossa aventura no lago. Se ele fôr bom a enfeitar o relato poderíamos ter uma nova peça para a lista dos «best-sellers». O título poderia ser "Promete que me salvas, Leiria"

Joaquim Rosa Silva disse...

O nosso timoneiro tem memória de elefante.
As histórias com que nos brinda e com esta frequência é de bater a pala e/ou tirar o chapéu.

Artur/Leiria disse...

Whatever colega (…) nessa e noutras estou bem, muito bem, mesmo, contigo!
O título já temos, "PROMETE QUE ME SALVAS, LEIRIA" agora com a aprovação do Marcolino aí estamos nós em business, prontos a criar uma obra de arte, um bestseller... Considerando também, que o teu talento é de primordial importância em aventuras destas… ou não fosses tu o homem encarregado do marketing, no agora e no passado. Por essa e outras razões: PIMBA, já está (à Emanuel), sucesso à porta, GARANTIDO!

Saúde e sucesso a todos – homens da luta…